domingo, 6 de maio de 2012

CÂNCER E TRABALHO


O médico oncologista Roberto Sales analisa estudo sobre novos tumores

Lançado um novo alerta sobre câncer. Dessa vez, é a relação entre a doença e o trabalho, atividades até então fora do círculo de possíveis causadoras. Na última segunda-feira, 30, o Instituto Nacional do Câncer José de Alencar Gomes da Silva (Inca) publicou o estudo "Diretrizes para a Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho", que relaciona 112 substâncias cancerígenas e identifica 19 tipos de tumores que podem estar relacionados à atividade laboral.

Entre os produtos apontados pelo estudo, estão os mais conhecidos como radiação solar, agrotóxicos e amianto, mas também outros praticamente nunca antes relacionados, como poeira de cereal e de madeira, além de tinturas de cabelo, formol e outros químicos usados em salões de beleza.

Profissões até então insuspeitas  são tidas agora como de risco, como cabeleireiro, barbeiro, frentista de posto de gasolina, piloto de avião, comissário de bordo, farmacêutico, enfermeiro.

As diretrizes do Inca apontam entre tipos de câncer provocados por exposição ambiental ou laboral os de faringe, laringe e cavidade oral, mama, pulmão, estômago e esôfago, bexiga, leucemias e mielodisplasias e pele (melanoma ou não).

Segundo o Departamento de Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho do Inca, as implicações entre câncer e ambiente de trabalho sempre foi subdimensionada justamente pela dificuldade de se estabelecer uma relação concreta entre eles no ato da consulta médica. 

"Raramente o médico pergunta ao paciente qual a ocupação dele. É importante que os profissionais da saúde questionem aos doentes diagnosticados com câncer qual foi a rotina laboral que exerceram por mais tempo em suas vidas. Só assim será possível identificar e registrar os casos de câncer relacionados ao trabalho no Sistema Nacional de Agravos do Ministério da Saúde", disse a epidemiologista do Inca, Ubiraci Otero, em material informativo distribuído à imprensa nacional. 

A reação a esse quadro está a caminho e as entidades ligadas ao trabalho têm papel fundamental nesse controle. Os sindicatos devem alertar aos trabalhos sobre quais riscos sua atividade pode trazer. A recomendação é identificar e catalogar todas as substâncias com possível potencial cancerígeno e retirá-las do ambiente de trabalho.

A legislação brasileira determina elaborar fichas de informação de produtos químicos, a catalogação de empresas com atividades e uso de agentes cancerígenos, o reconhecimento e a avaliação de riscos ambientais de trabalho, além do controle à exposição aos fatores de risco. Até 2016, o Sistema Único de Saúde deverá ter um protocolo para registro de casos, com o objetivo de formar um banco de dados.

Identificar, eliminar ou reduzir também está nas diretrizes para diminuir a incidência dos tumores malignos relacionados com exposições ocupacionais. 

Em 2009, a Previdência Social concedeu 113.801 benefícios de auxílio-doença por câncer, sendo que 0,66% teriam relação ocupacional. A publicação do Inca atenderá à demanda do Ministério da Saúde nesta área. 

Subnotificação mascara número real de casos de câncer

Além dos novos pontos demonstrados no estudo Instituto Nacional do Câncer (Inca), a subnotificação de casos também preocupa bastante os especialistas da área. E isso vale para todos os tipos de tumores. De acordo com oncologista Roberto Sales, a previsão do Ministério da Saúde para o Rio Grande do Norte, para o biênio 2012/2013, é de 6.400 novos casos por ano. O número pode ser considerado alto, mas para o médico ele ainda não representa a realidade, pois há tanto outros não notificado.


Para se ter uma ideia da gravidade, só a Liga Norte-Riograndense Contra o Câncer trata 555 novos casos por mês. Se multiplicarmos esse número por 12 (meses), o resultado será 6.660.

"Só essa entidade trata mais do que toda a previsão do  Ministério para o Estado. E para nós tratarmos, precisamos receber o incentivo; precisa haver um investimento do Governo Federal", analisa Roberto Sales.

Ele ainda questiona a hipótese de o Governo Federal não ter também essa informação completa, devido aos altos índices de subnotificação, trabalharem apenas com os 6.400 casos no biênio, então só será investido no Rio Grande do Norte para tratar 6.400 indivíduos. "Só que só a Liga trata mais 6.600. Aí fica esse caos, essa dificuldade constante, eterna, de fazer um tratamento adequado para a população." 

A falta de uma notificação mais eficiente parte até mesmo do pensamento coletivo que se  tem sobre os agentes causadores do câncer. O estudo do Inca comprovou 112 substâncias causadoras da doença. Até então, os vilões mais conhecidos eram outros. "Se eu perguntar a qualquer cidadão o que é que causa mais câncer, ele vai dizer luz solar, radiação solar, fumo...", diz Roberto Sales.

Ele cita como exemplo o amianto, produto bastante utilizado na construção civil como matéria-prima de telhas e caixas d'água. "Praticamente, ele não existe mais na construção. Mas é usado em freio de carros;  e em freio de metrô. Imagine você no metrô, num ambiente fechado daquele, milhares e milhares de pessoas, todo dia pegando metrô, e nos freio dele tendo amianto..."

Entrevista - Roberto Sales, oncologista

O que lhe chamou a atenção no estudo do Inca sobre novas profissões suscetíveis a tumores?

Além dessas novas profissões, como manicure, cabeleireira, tem várias outras. Uma coisa preocupante que eu vi no trabalho e pude constatar é a inserção das mulheres no mercado de trabalho. Com o boom industrial da década de 70, várias mulheres passaram a ocupar, por exemplo, funções de mecânico, operário da construção civil, pintando casa, trabalhando como frentista de posto de gasolina. Não se via isso há 30, 40 anos. Então, nessa história toda, mais uma vez, não digo que a mulher está sendo prejudicada, mas está sendo o principal alvo e que merece mais atenção. É extremamente preocupante essas novas profissões e a inserção da mulher nesse mercado de trabalho, que a torna mais vulnerável ao surgimento dessas doenças, do câncer.

A prevalência do câncer nessas novas profissões pode trazer a doença para uma faixa mais jovem da população?

Claro! O câncer é predominante no adulto, mas veja bem: existem alguns trabalhos que mostram que os fatores genéticos e ambientais começam a modificar a estrutura do DNA da célula e ela caminha de normal para uma célula de câncer. Isso, através de trabalho de laboratório, podemos dizer que é em sete anos. Se as pessoas entrarem no mercado de trabalho cada vez mais cedo e entrarem em contato, cada vez mais cedo, com esses produtos - e eu fiquei estarrecido com os 112 produtos cancerígenas citados no estudo - é claro que isso faz com que  haja a possibilidade; ninguém pode afirmar; do surgimento de novos tipos de câncer em pacientes mais jovens. E nós já vemos isso. Sou formado há 35 anos, e lembro que raramente a gente via, por exemplo, um câncer de mama em pacientes mais jovens. Já tive uma paciente com 22 anos. Mas não é uma coisa comum. Hoje, de cinco, dez, quinze anos para cá, o câncer de mama tem acometido, com maior uma frequência as mulheres mais jovens, na faixa de 30, 35, 40, 45, 50 anos de idade. Isso é tudo uma incógnita, mas quem sabe se isso não tem também uma responsabilidade dessa inserção das mulheres no mercado de trabalho e o contato com essas substâncias mais cedo.

Quer dizer que o próprio homem vem criando condições cada vez mais favoráveis ao aparecimento do câncer?

É por aí mesmo! Por exemplo, uma coisa interessante que nesse trabalho do Inca tem: não existe nada provando nas radiações ionizantes que, por exemplo, radar emite esse tipo de radiação; da mesma forma o celular, o micro-ondas, os próprios fios de alta tensão, e tem tudo isso no estudo. Quer dizer, estamos cercados. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.   

E cada vez mais são lançados novos equipamentos eletrônicos...

E cada vez mais nós usamos. Há trinta anos, não tinha isso. Hoje, ninguém se imagina sem um celular. E quantas horas por dia a gente passa com isso no ouvido. Faz parte da vida da gente. Quando saímos de casa sem celular parece até que estamos nus. A gente volta pra casa pra pegar porque não pode sair sem ele. São esses produtos modernos que se supõe - não podemos afirmar algumas coisas; apenas está em suposição - possam causar algumas doenças, inclusive o câncer, mas que vai precisar de mais tempo para se confirmar. Uma coisa interessante dessa diretriz ditada pelo Inca é que isso reflete em algo que nós que fazemos oncologia - eu que já trabalho há 35 anos na Liga - a gente se preocupa muito com a prevenção, com o diagnóstico precoce, o tratamento adequado,  para poder cada vez mais reabilitar o paciente e curá-lo. Mas na hora que todos esses fatores negativos  estão bombardeando as pessoas, isso vai levá-las ao absenteísmo, à aposentadoria precoce. São possibilidades. Isso pode trazer daqui a 10, 15, 20 anos, um caos tanto na saúde pública como na Previdência Social. Pode ser que não; mas pode acontecer isso no futuro! Como hoje a gente já se depara, com o aumento exagerado de casos de câncer, provocados ou não pelo trabalho, com um nível alto de absenteísmo. Isso é preocupante.   Quanto mais um país, um estado, uma cidade, tiverem pessoas faltosas ao trabalho, alguém está pagando aquela conta. Se eu falto, alguém está trabalhando para me sustentar fora do trabalho. E isso é uma preocupação muito grande dos órgão ligados, neste caso ao câncer, porque a gente antevê um aumento exagerado,  já previsto até pela Organização Mundial de Saúde, nos próximos 10, 20 anos. E essa diretriz do Inca só vem fortalecer esse dado.

O que considera mais importante nessas diretrizes do Inca?

O que eu vejo de tudo isso com essas diretrizes, sinceramente, e é preocupante, é que realmente o Governo Federal, o grande gestor de toda a saúde pública nacional, através das secretarias municipal, estadual e federal, através de recursos, ajude na prevenção, no diagnóstico precoce,  tratamento, reabilitação e cuidados paliativos dos pacientes. O que acontece, e é também um dado muito preocupante, é a subnotificação desses casos. Segundo o Ministério da Saúde, a perspectiva para o biênio 2012/2013 é de 500 mil novos casos de câncer no Brasil. Desses 500 mil, 4% são relacionados ao trabalho. É um número significativo; é muita coisa! E em que isso é preocupante? É essa subnotificação. Certamente, esses 4%, segundo dados do próprio ministério, poderiam ir até 16%  se houvesse uma notificação adequada dos casos de câncer. Exemplo: o paciente tem um caso de bexiga e é tratado como tal. Mas o que foi que causou esse câncer de bexiga? Será que não foi alguma coisa, algum contato que ele teve com algum produto químico? Ninguém sabe; não existem esses dados no Brasil por falha do próprio sistema de saúde.

Tribuna do Norte

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